
ESTÓRIAS DE UMA VIDA
NÃO VIVIDA
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PASSADO: "Dei Uma
Surra no Ladrão, Ora"
Eu descia a ladeira que
separava a parada de
ônibus da minha casa, em
Natal, chegava do
trabalho, com várias
pastas de provas de meus
alunos sob o braço,
quando o meu celular
recém-comprado tocou.
Brilhava no visor o nome
Dim. Atendi e continuei
andando enquanto
conversava. Dim me
falava sobre novidades e
bobagens. Atravessei uma
das travessas e observei
uma figura sinistra se
aproximando, mas a
ignorei, com certeza não
seria nada, mas eu
estava enganado e
descobri isso quando
ouvi: "Passa o celular".
Eu olhei para trás com
calma. A figura
sinistra, um jovem
moreno de cabelo
encaracolado e olhos sem
brilho, pressionava uma
faca contra minha
barriga e repetia: "O
celular!". Eu analisei-o
de cima a baixo e disse
ao Dim no telefone:
"Hei, eu estou sendo
assaltado. Falo com você
já, já, viu?".
Desliguei o aparelho e coloquei-o no meu bolso. Ele me olhou sem entender e repetiu: "Eu falei p'ra você me passar a porra do celular!". Naquele instante todos os conselhos de nunca reagir a assaltos pipocavam na minha mente, toquei o celular ainda uma ultima vez quando foi mais forte que eu: "Não!", surpreendendo o ladrão, que então pressiona a faca com mais intensidade na minha barriga quase me ferindo, quando falo: "Olha, eu moro logo ali, você não vai me assaltar quase na calçada da minha casa". O ladrão, então, surpreendido, hesitou por alguns segundos, e era um pouco de exagero, mas não mentira, faltavam alguns quarteirões. Foi quando ele recuperou a vontade e decidiu reforçar sua ameaça, mas antes, num movimento rápido, derrubei a faca jogando as pastas sobre a arma, ele deu um passo para trás e eu o segui, caindo com meus punhos cerrados no rosto dele. Ele tentou se defender e eu ouvi atrás de mim uma senhora gritar: "O que está acontecendo na porta da minha casa?", o ladrão estava no chão, tentando proteger-se quando gritei que ele pretendia assaltar-me. Dois homens grandes e musculosos colocaram-se ao meu lado e a senhora disse: "Ninguém vai assaltar você aqui não, meu filho".
O ladrão olhou-me assustado e surpreso, levantou rapidamente e olhando os dois "seguranças" que surgiram ao meu lado correu o mais rápido que pôde, agradeci e dirigi-me novamente a minha casa, foi quando o celular tocou de novo: o Dim, em conferência com o Fê. "Que houve?", perguntavam assustados, "Dei uma surra no ladrão, ora".
Por Foxx
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A ponte
Cheguei carregando uma
garrafa de Chateaux.
Claro que Charteau. Meia
hora antes quando eu
procurava o que beber,
pensei: "por que não
comprar a mais cara?".
Afinal eu não queria
pensar no amanhã. Não
queria me preocupar com
o outro dia.
Ainda não estava bêbado
quando cheguei naquela
ponte. Sei isso porque
lembro que olhei para o
fundo daquele vão e
ainda senti minhas
pernas fraquejarem
devido a vertigem que me
envolveu.
E fiquei lá, recostado
sobre aquele parapeito,
que deveria proteger-me
da queda, com minha
suave garrafa de
Chateaux. Senti a
suavidade do vinho levar
as dúvidas e trazer as
lágrimas.
Foram as lágrimas que me
fizeram subir no
parapeito. Talvez porque
meus olhos úmidos não me
deixaram ver as trevas
profundas, ou por causa
do álcool que corria nas
minhas veias, só sei que
não senti mais medo. O
Chateaux acabou. A
garrafa então tornou-se
pesada, e meus braços se
recusaram a segura-la.
Ouvi-a cair.
Olhei para as estrelas.
Admirei-as. Sorri um
sorriso triste e larguei
a coluna que eu me
segurava. Senti o vento
abraçando meu corpo. Um
carinho frio. Pensei no
passado e no presente, e
quando pensei no futuro,
gargalhei. A melhor
gargalhada de toda minha
vida.
Aí me soltei. Abracei o
vento. A queda. Caí. No
segundo seguinte me
senti livre. No outro,
me arrependi. Meu
coração se encheu de
esperança. Tudo pareceu
tão pequeno. Nada vale
isso. Para quê desistir?
Para quê pular? Quando
as trevas me alcançaram,
eu só pensava em uma
coisa: eu queria saber
voar.
Por Foxx
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Presente: Tem Dias
Tem dias que tudo parece
mais difícil. Tem dias
que a gente acorda com
vontade de gritar.
Tem dias que os joelhos
fraquejam diante do peso
a levantar e tudo parece
um tanto impossível de
realizar.
Tem dias que o sol
parece não brilhar. Tem
dias que as nuvens
negras nos cercam, a
neblina nos cobre e os
buracos invisíveis nos
surpreendem. tem dias
que vamos cair, não há
como evitar.
Tem dias que você
gostaria de ficar
embaixo de suas cobertas
para que nada pudesse te
tocar, talvez voltar
aquele sonho que não
tinha nada a ver com
esta realidade onde
monstros insistem em te
cercar.
Tem dias que a gente
queria ficar de fora do
mundo, deixando ele
correr, deixando ele
passar, para talvez mais
tarde tentar voltar. Tem
dias que dá vontade de
morrer , em outros, só
queremos descansar.
Tem dias que o futuro
parece um borrão de
cores sombrias e
virulentas que tememos
entrar. Tem dias que as
orações parecem não
bastar. Tem dias que os
medos nos controlam. Tem
dias que é a falta de
esperança que nos
assombra. Tem dias que
não dá para parar de
reclamar.
Tem dias que dá para
fugir, em outros, somos
obrigados a ficar. Tem
dias que terminam com
cansaço, dores e
desilusões e pensamos no
porquê de continuar. Tem
dias que a gente sofre
mais, não dá para negar.
Tem dias que queremos
ter somente um colo para
deitar a cabeça e
chorar.
Por Foxx
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PASSADO: Se Eu
Fosse...
Era um domingo, mais um
domingo de sol em Natal,
na tv, nada o que ver,
vesti-me e decidi sair,
sozinho, como eu sempre
me senti, numa
adolescência que se
estendeu por tempo
demais, que só terminou
quando finalmente eu
assumi para eu mesmo o
que eu era e o que eu
gostava. O destino:
Natal Shopping Center,
talvez uma sessão de
cinema, sentar naquelas
sofás macios e ver as
pessoas passar, deveria
me fazer bem ver
pessoas, talvez ser
visto, talvez conhecer
alguém num conto de
fadas muitas vezes
sonhado. Por que não? Os
filmes, as novelas, as
músicas, todos falavam
de encontros em locais
que ninguém nunca
espera, em encontros não
programados, em estórias
que começam do nada.
O caminho no shopping já
havia sido muitas vezes
traçado. Muitas vezes
vivido, muitas vezes
trilhado. Olhar as
vitrines e parar na
banca de revistas, ou
descer pelas escadas
rolantes, e cruzar a
praça de alimentação até
o cinema, depois, antes
da sessão, uma parada
obrigatória na
Docelândia. Sempre
preferi chocolate e
salgadinhos, no cinema,
a pipoca. Mas sempre
sozinho. Naquele dia,
não fora diferente.
Segui entre as vitrines
que distavam a Rio
Center da banca de
revistas, vasculhei os
meus super-heróis
preferidos, comprei
aqueles que desejava,
com uma sacola plática
na mão e duas revistas
lá dentro, desci as
escadas e cruzei a praça
de alimentação sendo
observado pela foto de
alguma campanha Dolce
Gabanna, comprei o
ingresso para algum
filme desimportante e
voltei-me aos doces. Lá
eu estava, sozinho.
Era sozinho que eu era visto por outras pessoas sempre. Mas as outras pessoas nunca estavam sozinhas. Estavam sempre acompanhadas. Casais de namorados, ou grupos de amigos, olhando as vitrines, ou na banca de revistas, ou descendo as escadas rolantes, ou rindo na praça de alimentação, ou na fila do cinema, ou comprando doces na loja. E eu sentia inveja!
Por que eu não podia também estar também acompanhado? Por que não tinha amigos ou estava namorando? A resposta para mim, naquela adolescência sem fim, era simples: eu era gay! Era por isso que não tinha amigos e era por isso que eu nunca encontraria ninguém para namorar comigo. Quantas noites, após o cinema, voltando para casa no onibus, eu chorei em silêncio na certeza que minha solidão duraria para sempre. As lágrimas caíam e eu tentava não soluçar para que ninguém percebesse. Agora repito o mesmo gesto, em Belo Horizonte, revivendo esses momentos, voltando de um shopping onde sozinho, também, fui ao cinema e agora volto para um apartamento vazio, e não consigo não me perguntar: se eu fosse hétero seria assim também?
Por Foxx




